Famíia Palhano - Mato Grosso - O Pacto da Figueira - Dourados


Aprendi respeitar a natureza na minha juventude, quando ouvi uma passagem histórica, contada pela minha avó materna Benedita Pedroso. E a nossa conversa só fluiu, porque o prefeito petebista da época João Totó Câmara, simplesmente estava cortando as figueiras plantadas pelo seu antecessor udenista Antônio de Carvalho, na década de quarenta do século passado. Inclusive, as restantes ainda existentes em algumas ruas douradenses, permanecem bem preservadas, graças aos munícipes que impediram seus cortes na época dessa derrubada. Naquele tempo, a viúva de Isidro Pedroso contou-me a respeito do acordo firmado anos antes no fio de bigode. Segundo ela, debaixo da figueira do seu Osório, na sede da sua fazenda.
Disse-me a quase centenária mulher, lúcida apesar da idade avançada, que certa vez foi celebrado um pacto entre mineiros e gaúchos nos anos trinta. Por esse acordo, os migrantes das alterosas pediam para preservar as figueiras, que sombreavam o descanso dos boiadeiros e outros viajantes. Os migrantes gaúchos exigiam manter os coqueiros, pois suas folhas alimentavam cavalos. Combinando dessa maneira, contou a anciã que foi marcado um encontro entre as partes naquela fazenda. No dia, mataram seis novilhas gordas, assando-as num buraco cavado no chão. Então, iniciada essa pioneira reunião ecológica (eles nem sabiam), cerimoniosamente a presidiu o primeiro prefeito de Dourados, cidadão João Vicente Ferreira (primo da minha avó).
Nela igualmente se fizeram presentes meu tio, o vereador Antônio Emilio de Figueiredo e seu colega vereador Ciro Mello. Minha avó se recordou inclusive, das presenças do carpinteiro Januário Pereira de Araújo, construtor da primeira casa no povoado; do grande numero de pessoas da família Mattos, a mais politizada e responsável pelo movimento da emancipação; membros da família Azambuja; Floriano Brum, Júlio Leite; Pedro Rigotti; os Palhano e os Torraca; Feliciano Vieira Benedetti; o argentino Lucio Stein e o professor Acácio Arruda, fundador da Escola Erasmo Braga, entre outros que não recordo os nomes. Posteriormente, os agrônomos Valdomiro de Souza (Vadú) e Wlademiro Muller Amaral, traçando e abrindo as ruas do chamado “patrimônio”, fizeram questão de respeitar o apelidado pacto da figueira, tratado entre os nossos desbravadores.
Lamentei, por daquela ocasião não existir uma Ata, documentando esse pacto. Aí, com a simplicidade própria dos fundadores, minha avó disse que naquele tempo, valia a palavra empenhada no fio de bigode. Mas, hoje pior que corta-las, é ler em jornais impressos, a apologia do concreto querendo destruir o verde. Para eles, o negócio (lucrativo) é plantarem-se árvores no perímetro urbano, que vivam caindo em cima das casas, dos veículos e matando nessas quedas infelizes transeuntes. O ultimo temporal que o diga, pois as figueiras, seringueiras nativas (também chamadas de figueiras) e guajúviras, nem se abalaram passado o ultimo vendaval local. Quero lembrar ao senhor presidente do Conselho Municipal de defesa do Meio Ambiente, Ataulfo Stein, que essas figueiras já existiam antes da Enersul e Sanesul. Parece-me, portanto, que nossos ancestrais, no seu caso o pioneiro Lucio Stein, sendo preservadores não conheceram o efeito estufa.
Todavia, tal não ocorreu, porque nossos antepassados cuidavam dos mananciais e cardumes existentes. A propósito, seria bom que certos douradenses adotados, se informassem da história desta terra, cujas árvores alguns forasteiros derrubaram, venderam a madeira, enriqueceram e foram embora. Naturalmente, adotando outra cidade longe daqui. Posto isso, dou meu apoio aos estudantes universitários, afinal eles são jovens e querem salvar o amanhã. Dessa forma, seria melhor aplaudir essas iniciativas ecológicas. Quiçá, futuramente um deles leve a sério a necessidade de retirar da rodovia do Porto Cambira, os sem teto sugismundos e o lixão expandindo-se nas suas margens...
Isaac Duarte de Barros Junior - advogado criminalista, Jornalista. *

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