LONDRINA 80 ANOS - PELA PICADA DE JOAQUIM PALHANO ATÉ O MARCO DO PATRIMÔNIO TRÊS BOCAS.
Os “burros, tão velhacos, derrubavam a carga de tempos em tempos” e o suor humano atraía a variedade de insetos. Relatos de George Craig Smith e de Erwin Frölich divergem, mas a data oficializada é 21 de agosto de 1929.
Em 1878, já frustrado em seu projeto de construir uma Estrada de Ferro que chegasse ao Norte do Paraná, por estar falido, o Visconde de Mauá foi reverenciado em Londres, na edição do livro Pioneering in the South Brazil (“Pioneirismo no Sul do Brasil”, Editora John Murray), em que o engenheiro Thomas Bigg-Wither relata a própria vivência de três anos (1872-1875) na floresta e pradaria da Província do Paraná, tema de sua conferência na Real Sociedade de Geografia dois anos antes. O livro é “dedicado a Sua Excelência o Visconde de Mauá, a quem o autor é especialmente devedor pelas oportunidades (…) de viajar e fazer observações em região pouco conhecida”, onde esquadrinhou os vales dos rio Ivaí e Tibagi, tarefa inerente ao projeto ferroviário.
Intitula-se Novo Caminho no Brasil Meridional: a Província do Paraná (Imprensa Oficial do Estado, 1972) a edição brasileira, e o tradutor, Temístocles Linhares, presume que, apesar de mencionar o insucesso de colonos ingleses ao sul do Paraná, o original tenha despertado investidores londrinos para “novos e mais amadurecidos empreendimentos no futuro”. Por exemplo, a colonização de Londrina, “a cuja frente se encontrava esse Lord Lovat, acerca de cujas curiosidades no plano intelectual tão pouco se sabe, mas que deveria ter sido, nos tempos de moço, pelo menos, leitor apaixonado de Bigg- Wither”.
Quando o livro circulou, Simon Joseph Fraser (1871-1933), o futuro 14° Lord Lovat (geralmente nominado 16°), tinha sete anos de idade; o interesse efetivo de investidores britânicos pelo norte paranaense daria sinais em 1919. Nesse ano houve uma exploração entre o Rio das Cinzas e o Laranjinha, relatou Benedito Rodrigues dos Santos (Folha de Londrina 4/2/1982). Tal localização não serviu por causa da vegetação de cerrado a leste, indicando terras menos férteis, e da limitada distribuição de cursos d’água. Nova entrada se dá no último trimestre de 1922, mais a oeste; atravessa o Tibagi e atinge o centro da futura Londrina, onde está o bosque. Santos recordou que trabalhava para ingleses em Chavantes (SP), produzindo alfafa, e participou das duas expedições, acompanhando o general George Rosch (chefe), J. W. Guindo, W. Thompson, os irmãos Rolando e Willie Davids, o engenheiro João de Mello Peixoto e auxiliares.
Daí a origem de Londrina com a Companhia de Terras Norte do Paraná (1925), a compra das glebas e da estrada de ferro (1925-1928) e a fundação do Patrimônio Três Bocas, em 1929.
-“Pela picada aberta por Joaquim Palhano é que nossa turma, D. Pereira e eu, alargamos em 1928”, rememorou o agrimensor Ludovic Surjus comentando um de seus nostálgicos passeios (1979). “Cedo fui de ônibus até a Anderson Clayton; depois, a pé, contornei o bosque onde se iniciou Londrina, em agosto de 1929.” (*)
Intitula-se Novo Caminho no Brasil Meridional: a Província do Paraná (Imprensa Oficial do Estado, 1972) a edição brasileira, e o tradutor, Temístocles Linhares, presume que, apesar de mencionar o insucesso de colonos ingleses ao sul do Paraná, o original tenha despertado investidores londrinos para “novos e mais amadurecidos empreendimentos no futuro”. Por exemplo, a colonização de Londrina, “a cuja frente se encontrava esse Lord Lovat, acerca de cujas curiosidades no plano intelectual tão pouco se sabe, mas que deveria ter sido, nos tempos de moço, pelo menos, leitor apaixonado de Bigg- Wither”.
Quando o livro circulou, Simon Joseph Fraser (1871-1933), o futuro 14° Lord Lovat (geralmente nominado 16°), tinha sete anos de idade; o interesse efetivo de investidores britânicos pelo norte paranaense daria sinais em 1919. Nesse ano houve uma exploração entre o Rio das Cinzas e o Laranjinha, relatou Benedito Rodrigues dos Santos (Folha de Londrina 4/2/1982). Tal localização não serviu por causa da vegetação de cerrado a leste, indicando terras menos férteis, e da limitada distribuição de cursos d’água. Nova entrada se dá no último trimestre de 1922, mais a oeste; atravessa o Tibagi e atinge o centro da futura Londrina, onde está o bosque. Santos recordou que trabalhava para ingleses em Chavantes (SP), produzindo alfafa, e participou das duas expedições, acompanhando o general George Rosch (chefe), J. W. Guindo, W. Thompson, os irmãos Rolando e Willie Davids, o engenheiro João de Mello Peixoto e auxiliares.
Daí a origem de Londrina com a Companhia de Terras Norte do Paraná (1925), a compra das glebas e da estrada de ferro (1925-1928) e a fundação do Patrimônio Três Bocas, em 1929.
-“Pela picada aberta por Joaquim Palhano é que nossa turma, D. Pereira e eu, alargamos em 1928”, rememorou o agrimensor Ludovic Surjus comentando um de seus nostálgicos passeios (1979). “Cedo fui de ônibus até a Anderson Clayton; depois, a pé, contornei o bosque onde se iniciou Londrina, em agosto de 1929.” (*)
O lugar está certificado e a data, oficializada pelo Museu Histórico, sempre fora reafirmada por George Craig Smith (1909-1992), até para que não fosse confundida com a da instalação do município: “Londrina, na verdade, nasceu naquela tardezinha de 21 de agosto de 1929, quando o Dr. Alexandre Razgulaeff fincou o primeiro marco ao chegar às terras da Companhia”. Mas Erwin Fröhlich, outra testemunha do fato, anotou o dia 22, mencionando a interrupção da marcha no dia anterior: “Como íamos contando, no dia 21 de agosto pousamos no quilômetro 16, na picada Jataí-Sertão, onde havia uma pequena derrubada de mata. No dia 22 erguemo-nos bem cedo e pusemo-nos a caminho”.
Jornada concluída antes do meio-dia, apesar dos “burros, tão velhacos, que derrubavam a carga de tempos em tempos” e da variedade de insetos atraídos pelo suor humano. “Finalmente, às dez horas da manhã, atingimos uma nascente de água, Flor D’água como era conhecida dos caboclos (hoje Córrego das Pedras), onde começava a vasta área de terra a ser colonizada.”
Alberto Loureiro, Alexandre Razgulaeff, Erwin Fröhlich, Geraldo Pereira Maia, George Craig Smith, Joaquim Benedito Barbosa, Spartaco Bambi (também agrimensor) e outros não nominados na história fundaram o patrimônio, conforme o depoimento de Frölich escrito em 1949 para a revista A Pioneira (n° 5, outubro-novembro). O português Alberto Loureiro morava em Cambará, onde fora convidado pessoalmente por Arthur Thomas para derrubar a mata, no que era especializado. Empreiteiro também da estrada de rodagem, “era considerado (...) verdadeiro marimbondo de braveza e com ele não havia meias-medidas, era tudo na hora certa e nada de falas”, segundo Fröhlich. Desde 1921 no Brasil, o russo Alexandre Razgulaeff aclimatara-se e “compreendia tão-bem o nosso caboclo que parecia um autêntico brasileiro”.
Sucedendo os ranchos dos precursores, o Hotel Campestre e o depósito de materiais da colonizadora foram as primeiras edificações efetivas no marco inicial, de onde a clareira foi expandida para 10 alqueires, abrangendo as áreas mais tarde ocupadas pela Serraria Curotto, Anderson Clayton e a Viação Garcia. “Em 30 de janeiro de 1930 foram inauguradas a balsa sobre o rio Tibagi e a estrada de automóveis até o Hotel Campestre”, anotou Fröhlich. “Uma satisfação enorme, para todos, esse marco avançado da civilização.”
Se ainda existisse, o hotel estaria na rua Santa Terezinha Cambuí e a Damasco, meia quadra abaixo de onde se localizou a entrada de caminhões no pátio da Anderson Clayton. Aos 80 anos do marco inicial, começa o debate entre os que aceitam a construção do Teatro Municipal naquela paragem e os que discordam.
Jornada concluída antes do meio-dia, apesar dos “burros, tão velhacos, que derrubavam a carga de tempos em tempos” e da variedade de insetos atraídos pelo suor humano. “Finalmente, às dez horas da manhã, atingimos uma nascente de água, Flor D’água como era conhecida dos caboclos (hoje Córrego das Pedras), onde começava a vasta área de terra a ser colonizada.”
Alberto Loureiro, Alexandre Razgulaeff, Erwin Fröhlich, Geraldo Pereira Maia, George Craig Smith, Joaquim Benedito Barbosa, Spartaco Bambi (também agrimensor) e outros não nominados na história fundaram o patrimônio, conforme o depoimento de Frölich escrito em 1949 para a revista A Pioneira (n° 5, outubro-novembro). O português Alberto Loureiro morava em Cambará, onde fora convidado pessoalmente por Arthur Thomas para derrubar a mata, no que era especializado. Empreiteiro também da estrada de rodagem, “era considerado (...) verdadeiro marimbondo de braveza e com ele não havia meias-medidas, era tudo na hora certa e nada de falas”, segundo Fröhlich. Desde 1921 no Brasil, o russo Alexandre Razgulaeff aclimatara-se e “compreendia tão-bem o nosso caboclo que parecia um autêntico brasileiro”.
Sucedendo os ranchos dos precursores, o Hotel Campestre e o depósito de materiais da colonizadora foram as primeiras edificações efetivas no marco inicial, de onde a clareira foi expandida para 10 alqueires, abrangendo as áreas mais tarde ocupadas pela Serraria Curotto, Anderson Clayton e a Viação Garcia. “Em 30 de janeiro de 1930 foram inauguradas a balsa sobre o rio Tibagi e a estrada de automóveis até o Hotel Campestre”, anotou Fröhlich. “Uma satisfação enorme, para todos, esse marco avançado da civilização.”
Se ainda existisse, o hotel estaria na rua Santa Terezinha Cambuí e a Damasco, meia quadra abaixo de onde se localizou a entrada de caminhões no pátio da Anderson Clayton. Aos 80 anos do marco inicial, começa o debate entre os que aceitam a construção do Teatro Municipal naquela paragem e os que discordam.
Urbanização exuberante, mas “eldorado” não foi para todos.
Garantia absoluta aos compradores foi o emblema da Companhia de Terras Norte do Paraná: mais de 13.000 lotes ainda não tinham escrituras definitivas em 1979, informou Alfredo Nyffeler, então diretor-gerente da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (sucessora da Companhia de Terras). Os proprietários mantinham apenas contratos averbados em cartório, “tal a confiança na seriedade da companhia”. Representavam 10% dos imóveis vendidos desde o início da colonização, da qual resultou “110 unidades urbanas [cidades e sedes de distritos] e mais de 130 mil sítios e fazendas”, conforme a exposição de Nyffeler a O Estado de S. Paulo (4/8/1998).
Contudo, há quem ponha em dúvida se, lá na origem, 80 anos atrás, o propósito seria mesmo gerar o resultado presente, e manifeste o entendimento de que se possa contestá-lo, porque nem todos que aderiram à colonização foram bem-sucedidos. Portanto, não tiveram o seu “eldorado” ou “terra da promissão”.
Para José Joffily, seria “normal admitir” que Lord Lovat veio ao Brasil a serviço dos banqueiros N. M. Rothschild & Sons “e igualmente lícito supor que as terras que ele comprou no Paraná deveriam lastrear supletivamente nossos débitos com os capitalistas britânicos”. Vinculando matanças de índios a devastações florestais em outros continentes e regiões brasileiras, Joffily diz que na prática “foi a filosofia seguida [pelos ingleses] na Rodésia, na Austrália e no norte do Paraná”. Mas os Irmãos Palhano, agrimensores a serviço do governo já na década de 1920, não encontraram índios dispersos nas áreas que seriam colonizadas, conforme depoimento de Kepler Palhano ao Museu Histórico. E a reserva indígena de Tamarana fora estabelecida em 1900. Historicamente, os conflitos ocorreram na margem direita do Tibagi, o mais localizado envolvendo a reserva dos caingangues em São Jerônimo, demarcada em 1854.
Contudo, há quem ponha em dúvida se, lá na origem, 80 anos atrás, o propósito seria mesmo gerar o resultado presente, e manifeste o entendimento de que se possa contestá-lo, porque nem todos que aderiram à colonização foram bem-sucedidos. Portanto, não tiveram o seu “eldorado” ou “terra da promissão”.
Para José Joffily, seria “normal admitir” que Lord Lovat veio ao Brasil a serviço dos banqueiros N. M. Rothschild & Sons “e igualmente lícito supor que as terras que ele comprou no Paraná deveriam lastrear supletivamente nossos débitos com os capitalistas britânicos”. Vinculando matanças de índios a devastações florestais em outros continentes e regiões brasileiras, Joffily diz que na prática “foi a filosofia seguida [pelos ingleses] na Rodésia, na Austrália e no norte do Paraná”. Mas os Irmãos Palhano, agrimensores a serviço do governo já na década de 1920, não encontraram índios dispersos nas áreas que seriam colonizadas, conforme depoimento de Kepler Palhano ao Museu Histórico. E a reserva indígena de Tamarana fora estabelecida em 1900. Historicamente, os conflitos ocorreram na margem direita do Tibagi, o mais localizado envolvendo a reserva dos caingangues em São Jerônimo, demarcada em 1854.
Os conflitos ali motivaram o deputado Arthur Martins Franco a defender no Congresso, na década de 1920, a extinção da reserva em benefício da população não-indígena. Em 1928, porém, a Justiça Federal expediu ordem de despejo da Prefeitura e de todos os moradores da cidade, situada em área dos índios. A ordem não chegou a ser cumprida e arrastando-se o litígio, em 1943 o prefeito José Schelleder sugeriu ao interventor no Estado a mudança da cidade, para fora da terra indígena. Desde a demarcação da reserva até o entendimento final, em 1980, o conflito durou 130 anos.
A proposta de deslocar 20 mil curdos (assírios) do Iraque para o Norte do Paraná indicaria outro propósito e não a colonização que se consumou. Destoa da observação do historiador norte-americano Jeffrey Lesser (citado em artigo de Léo de Almeida Neves), de que a Paraná Plantations se dispôs a ceder um lugar a 66 quilômetros de Londrina, portanto restrito, tendo a Liga das Nações oficializado o pedido ao Brasil, por se tratar de ação humanitária. A Inglaterra concedera a independência ao Iraque em 1932 e temia que os assírios católicos fossem atacados pelo governo muçulmano, o que prejudicaria os interesses econômicos britânicos na região, incluindo o petróleo.
Quando parecia certa a transferência dos assírios, em janeiro de 1934, houve protestos em Curitiba e Rio de Janeiro e o presidente Getúlio Vargas cancelou a autorização.

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