Continuava a correr plácidamente a vida na fazenda. Mas na casa grande eram crescentes as apreensões pelo precário estado de saúde de meu avô. ( 1)
A feridinha que surgira sob a língua (arranhadura de um caco de dente), persistia em não querer sarar e ia pouco a pouco tomando vulto.
Minha mãe (2) era a incansável enfermeira do bom velho, ela mesma fazia os curativos diários e preparava-lhe o substancioso pirão de farinha de mandioca com carne socada, inventado para atender à crescente dificuldade de mastigação. O velho, porém, não queria deixar o seu longo e antigo cachimbo, cheio de fumo forte; o afamado fumo do Codó, conhecido em toda a Província. O mais que minha mãe conseguia, fora lavar e secar aquele fumo negro, depois de saído da pequena máquina de picar, fixa no peitoril da varanda, do lado da estribaria.
Os negócios do velho também não andavam bem naquele ano para sempre memorável de 1.888. O cunhado, negociante em São Luiz, não pudera pagar ao banco os Contos de Reis, (tenho uma idéia de que eram 13, se não 30) de que me avô lhe fora fiador...
Apesar disso, tinha o velho, de vez em quando, uns fortes acessos de altruísmo em que queria libertar os escravos; pelo menos alguns entre eles.
E nisto chega o mês de maio.
Lá para o dia 14 ou 15 apresenta-se na fazenda um positivo, chegado da Vila com a notícia da abolição, decretada no Rio de Janeiro, pela benemérita Princesa Imperial Regente e pelo, não menos benemérito, Conselheiro João Alfredo Corrêa de Araújo. A nova tinha vindo da Corte pelo telégrafo e se espalhava rapidamente por todo o país... Era noite, ainda cedo. Meu avô, nessa mesma hora, quis que se comunicasse a boa nova aos ex-escravos. O sino da varanda começou desde logo a badalar em frente à capela, e os pretos, intrigados com a extemporânea chamada, se foram reunindo no pátio em frente, mal iluminado pela luz pálida dos candeeiros de azeite, que tinham vindo para cima do peitoril.
Tio Otaviano, (3) o antigo autor dos versos abolicionistas, foi o incumbido de anunciar o grande fato:
Vocês estão todos livres! Não há mais escravos no Brasil!
Silêncio... Parece que ninguém dá crédito a tão inesperadas palavras. Todos os brancos nos achamos debruçados, sorridentes, ao peitoril, com exceção de Tio Otaviano, que agora desce e vai se colocar no meio dos pretos:
Vocês não são mais escravos! Estão todos forros!
Começa a surgir um crescente murmúrio. Mas não há ainda nenhum grito, nenhuma exclamação de júbilo. Tio Otaviano prossegue:
Agora vocês devem ser muito gratos a quem lhes acaba de dar a liberdade. E se enchendo de entusiasmo:
Viva a Princesa Imperial Dona Isabel!
Viva!! Responderam os pretos, muito menos inflamados...
Viva Joaquim Nabuco!
Viva José do Patrocínio!
Viva!!
Agora vão brincar tambor, vão se divertir...
Só então os pretos começaram a entender... E lá se partem em busca dos tambores e da lenha para a fogueira, a discorrerem sobre a Rainha que os tinha livrado do cativeiro. Meu avô deu ordem ao feitor para matar um boi e um cevado na manhã seguinte, mandou que distribuíssem logo café e algumas garrafas de cachaça para a festa. E o tambor troou todo o resto da noite. Adormeci ao som das cantigas:
Meu benzim tá má comigo
eu não sei promóde quê.
Se eu lhe fiz arguma coisa
pegue na peia e me dê.
Ê Niculau
sela cavalo Niculau,
sela cavalo, Niculau!
Na manhãs seguinte, o sítio continuou animado, cheio de caras alegres e de saias domingueiras. Várias pretas fizeram, a seu modo, uma manifestação de simpatia a minha Avó: tomaram espontâneamente das suas cabaças e foram enchê-las ao açúde para rega das "plantas da Dondon". Vejo-as bem, em fila, na direção da horta, cujo coxo ou depósito d'água não tardou em ficar inteiramente cheio.
(1) Fabio Alexandrino Matos Palhano
Fazendeiro da região do Codó. Era proprietário da fazenda Mata Virgem, localizada junto ao Rio Itapecuru, a 72 km da Cidade de Codó. Nasceu e foi criado na Fazenda Bacabal. Em meados do século XIX possuia um grande número de escravos e produzia algodão em sua fazenda. Foi à falência.
(2)Luiza Carvalho Palhano - Filha de Fabio Palhano e Benigna Carvalho Palhano, esposa de Luiz Canuto de Jesus
(3) Otaviano Carvalho Palhano - Filho de Fabio Palhano e Benigna Carvalho Palhano
Engenheiro
JOSÉ PALHANO DE JESUS
Nasceu em Codó (MA) em 25 de maio de 1875. Nordestino de origem, tendo dedicado grande parcela de sua capacidade às obras da região, foi convocado a atuar de forma mais decisiva em seu favor, quando em
25 de março de 1927 foi designado Inspector Federal de Obras Contra as Secas, cargo que exerceu até 30 de novembro de 1930. Época em que escreveu esse livro, publicado em 1950.



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